segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nem tudo são flores

Li na edição número 137 (outubro de 2013) da revista Scientific American Brasil, uma reportagem muito legal, sobre abelhas. Procurei até não poder mais, pra ver se achava essa reportagem online, para indicar aqui (e no facebook) mas não encontrei. Procurei em inglês e nada também. Resolvi escrever pra SciAm Brasil e não achei onde mandar sugestões. Bom, vou tentar resumir aqui. O título da reportagem é (em português): "O Retorno das Abelhas Nativas".

"Mason bee" (Osmia lignaria) espécie já comercializada para polinização. (foto:http://www.agf.gov.bc.ca/apiculture/factsheets/506_osmia.htm)

Quem de alguma forma se interessa por abelhas, polinização e essas coisas, já deve deve ter ouvido falar da mortandade absurda de abelhas que tem ocorrido lá fora. Chama CCD (Colony Collapse Disorder - ou algo como desordem do colapso de colônia). Ela está preocupando bastante os agricultores e cientistas. Ela não é nova, mas em 2006, um apicultor perdeu 360 das 400 colmeias que tinha... as caixas tinham pólen, mel, crias... mas nada de abelhas. Elas saíram das caixas e não voltaram mais. Depois disso (que foi no outono), até o inverno seguinte alguns apicultores chegaram a perder 90% das colmeias.
Até hoje, não se sabe ao certo o que causa esse problema, mas algumas coisas parecem contribuir, como fungicidas, neonicotinioides (pesticidas), mas o que parece ser o principal culpado, são carrapatos do gênero Varroa, na reportagem eles dizem que na Austrália, onde os neonicotinioides são amplamente usados, mas onde não existe esse carrapato, as colônias não estão tendo esse problema da CCD. Esses carrapatos, além de sugarem o "sangue" das abelhas, ainda são vetores de doenças, disseminando vírus para as abelhas.
Um outro problema, é a questão das monoculturas. Por quê? Basicamente, superpopulação e mistura de causadores de doença de diferentes locais. Eles dão um exemplo bom: imagine um monte de criança num jardim de infância juntas, cada uma misturando seus agentes patogênicos. Isso acontece porque quando as grandes culturas dos EUA estão em floração, como as amendoeiras, as abelhas são "contratadas" para polinizar. Como as monoculturas são enormes (quem puder, veja o documentário "mais que mel", ou "more than honey", vale muito a pena), muitas abelhas, de diferentes regiões do país (e portanto com diferentes "cepas", ou "tipos" de doenças, se juntam). Mas o ser humano nunca causa um tipo só de problema. Com a sua tara por dinheiro, quer transformar tudo, inclusive seres vivos, em máquinas de fazer dinheiro. Quando não é época dessas grandes floradas, as abelhas não tem tanto alimento, então os apicultores alimentas as abelhas com água açucarada, xarope, milho... o que com certeza é muito menos adequado que pólen e não só pólen, como pólen de variadas espécies vegetais. As abelhas basicamente ficam a base de fast-foods quando não estão em uma monocultura (de qualquer forma, em uma monocultura a dieta delas, apesar de natural, estará longe de ser variada...). Sem contar o estresse pras abelhas de estar cada hora em uma região.
As abelhas nativas (sim, os EUA também tem abelhas nativas; as Apis não existiam lá) foram esquecidas. Na Califórnia existiam 1.600 espécies. Mas como era de se esperar, suas populações diminuíram e algumas espécies até sumiram de alguns estados americanos. Os pesquisadores estão tentando bolar maneiras de "chamar" e manter as espécies nativas de lá perto das plantações o ano todo. Estão começando a fazer testes, por exemplo, com diferentes espécies nativas dos EUA, que floram em diferentes épocas do ano, em "manchas" no meio das plantações, para que as abelhas nativas tenham lugar para ficar e alimento durante todo o ano.
Isso está sendo feito porque a ficha caiu (para muitos, pelo menos) que depender de só um tipo de polinizador (as Apis, que estão com problemas sérios, como sempre, com nossa contribuição) não é bom, porque se ele some, as lavouras vão diminuir muito sua produção ou até mesmo parar. Na China, onde alguns lugares não tem mais polinizadores por causa de perda de habitat e aplicação indiscriminada de pesticidas, fazendeiros contratam pessoas para ficarem com (pasmem) pinceizinhos, polinizando flor por flor (isso é mostrado no documentário que falei).
Algumas dessas abelhas alternativas já são até comercializadas!
Alguns agricultores lá fora já estão investindo em ter culturas de plantas nativas para os polinizadores nativos em suas plantações e o Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos subsidia de 50 a 90% dos custos para isso.
E nós, brasileiros, o que podemos fazer? Nós temos muitas abelhas por aqui. Podíamos "acordar"... aprender com o trágico exemplo dos Estados Unidos. Temos as Meliponini, que são sociais, podem ser criadas em caixinhas (em sua maioria) e produzem mel... mas também temos abelhas solitárias (que não vivem em colônias com divisão de tarefa entre abelhas e com muitas gerações juntas), mamangavas de diferentes tipos (essenciais em cultivos de maracujá), abelhas de suor, abelhas de orquídea... temos abelha de todo tipo.
Ao mesmo tempo, ia ser bom tomar cuidado e não transformar essas outras abelhas em novas "máquinas". Podíamos aprender a lição...

Bibliografia:

- Rosner, H. 2013. O retorno das abelhas nativas. Scientific American Brasil 137: 64-69.
Procurem e assistam o documentário More than Honey.

Um comentário:

  1. o conhecimento nos leva à reflexão e mudança de atitude. Muito bom!

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